28 de dezembro de 2009

Clarice Lispector

"A única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais. . ."





Feliz Ano Novo. . . !

          Todo mundo sempre costuma repetir:
"Ano-novo, vida nova".
Mas até que ponto sabemos realmente medir o peso desta afirmação e a colocamos em prática?
          Se no ano que passou,
você não conseguiu atingir suas metas,
concretizar sonhos, acumulou mágoas
e não superou desafios inesperados,
agora é a hora de abrir as janelas da mente e do
 coração para o futuro.
          É
 importante captar mensagens externas e não esquecer de olhar para dentro de si porque o caminho para uma vida nova passa, impreterivelmente, por nosso universo interior.
          A mutação de seu momento atual, enfim, depende exclusivamente de você. Depende do seu trabalho mental, em
 acreditar e realizar. Nada, nem ninguém poderá fazer isso por você.
          A ajuda pode, sim, vir de fora, mas o impulso deve partir de você. Independentemente de sua situação atual.
          Em primeiro lugar, questione com honestidade:
          "Eu realmente quero mudar minha vida?"
          Se a sua resposta for afirmativa, então é hora de mexer-se porque o ano-novo está aí.
Para que isto dê realmente certo, é necessário, antes de tudo, se permitir mudar.
          O próximo passo é derrubar aquelas barreiras internas tão prejudiciais, como o preconceito consigo próprio, o medo, a inveja e o rancor.
          E, não esqueça, o mundo ao seu redor apenas reflete o que você é.

Feliz Ano Novo!!!






25 de dezembro de 2009

Nataal. . .

"Sugestões de presentes para o Natal: 
Para seu inimigo, perdão. 
Para um oponente, tolerância. 
Para um amigo, seu coração. 
Para um cliente, serviço. 
Para tudo, caridade. 
Para toda criança, um exemplo bom. 
Para você, respeito" 


(Oren Arnold)





13 de dezembro de 2009

Espero a Minha Vez


Nx Zero
Se o medo e a cobrança, tiram minha esperança,
Tento me lembrar, de tudo que vivi,
E o que tem por dentro, ninguém pode roubar.

Descanso agora, pois os dias ruins, todo mundo tem,
Já jurei pra mim, não desanimar.
E não ter mais pressa, pois sei que o mundo vai girar,
O mundo vai girar, eu espero a minha vez.

O suor e o cansaço fazem parte dos meus passos,
O que nunca esqueci é de onde vim,
E o que tem por dentro, ninguém pode roubar.

Descanso agora, pois os dias ruins, todo mundo tem,
Já jurei pra mim, não desanimar.
E não ter mais pressa, eu sei que o mundo vai girar,
O mundo vai girar, e eu espero a minha vez.

E eu não to aqui pra dizer o que é certo e errado,
Ninguém tá aqui pra viver em vão.
Então é bom valer a pena, então é pra valer a pena, ou melhor não.

Os dias ruins todo mundo tem,
Já jurei pra mim, não desanimar
E não ter mais pressa, pois sei que o mundo vai girar,
O mundo vai girar, e eu espero a minha vez.



Clarice Lispector

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."




11 de dezembro de 2009

Sei Lá. . . A Vida Tem Sempre Razão

Sei Lá a Vida Tem Sempre Razão - Tom Jobim, Chico Buarque, Miúcha


Composição: Toquinho/Vinícius de Moraes




Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída
Como é por exemplo que dá pra entender
A gente mal nasce e começa a morrer
Depois da chegada vem sempre a partida
Porque não há nada sem separação


Sei lá, sei lá,
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Eu só sei que ela está com a razão
Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão


Ninguém nunca sabe
Que males se apronta
Fazendo de conta
Fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
O sol que desponta tem que anoitecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é um descuido do não




Sei lá, sei lá
Eu só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá,
A vida tem sempre razão
Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá,
A vida tem sempre razão
Sei lá, sei lá,
Sei lá, sei lá,
Sei lá, sei lá,
Sei lá, sei não!









1 de dezembro de 2009

Férias

Enfim, chegaram as minhas merecidas férias. Depois de um ano cansativo eis que chegam as férias. Essa ano foi muito bom e repleto de coisas novas. Tive que mudar de cidade por causa da faculdade, conheci várias pessoas, fiz novas amizades. Estava contando os dias pra chegar as férias, agora que chegou, ainda no primeiro dia, quero aulas de novo. A gente acostuma a ter que ir na faculdade e a hora que estamos lá é muito divertido. Já estou sentindo muita saudade das minhas amigas e dos meus amigos, pouco tempo que conheci mais já tornaram-se importantes na minha vida. É com eles que passo agora meus momentos engraçados, tristes, damos pala de tudo e de todos. Nesse pouco tempo, conheci pessoas maravilhosas, outras que pensei que nunca fosse dar bem e hoje são meus amigos, outras pessoas também que não dava nada por elas e se tornaram especiais. Eu sei que aonde eu for, a amizades com estas pessoas vão ser eternas. Algumas já considero como da família. Só tenho que agradecer a todos meus amigos e professores por dividirem comigo todas essas coisas esse ano e agradecer também por sempre me apoiarem. Vocês vão sempre estar no meu coração. Desejo tudo de bom para todos e torço pelo sucesso de vocês. 


ObrigadaA por fazer deste ano de 2009, o melhor ano.


Que venha 2010, né Galeraaa. . .

23 de novembro de 2009

15 Minutos de Fama. . .

Atualmente qualquer pessoa pode ficar famosa do nada. Com a tecnologia a cada dia mais avançada, podemos fazer um video seja por meio de câmeras digitais ou até mesmo por meio de celulares e postar no YouTube. Esses tipos de vídeos são temas variados, pode ser um show do seu artista favorito, pode ser uma cena inusitada ocorrida na rua, pode ser também pessoas que "pagam um micão" dançando e cantando mais ficam famosas.
Quem nunca ouviu falar na Sthéfany Cross Fox ou Sthéfany Absoluta? É impossível encontrar alguma pessoa que não sabe da existência desse "ser". A Sthéfany ficou famosa com o video "Eu Sou Sthéfany" que fala do Croos Fox Amarelo, uma versão da música "A Thousand Miles" da Vanessa Carlton. Ela ficou muito conhecida, participou do programa Caldeirão do Huck e ganhou um Cross Fox Amarelo. Hoje em dia ela aparece em quase todos os canais de TV. 
Agora a vez é da Ximbica. Faz pouco tempo que Ximbica surgiu e já é sucesso, ela já participou do programa da Eliana. O seu grande sucesso é "Ximbication", também uma versão de "Celebration" da Madonna.
Ximbica deixou bem claro no programa que vai "enterrar a Sthéfany". Vamos ver o que isso vai dar. . .

Dica do Dia
Não deixem de entrar nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=cdxGVznzG3M

Esse é o link da nova música da Sthéfany, "Blush Blush", uma versão de "Hush Hush" de The Pussycat Dolls.
É pra morrer de rir. . . !

19 de novembro de 2009

Pra quem acha que a vida não é fácil. . .

Viver é uma arte, só que precisa ter cuidado. A vida tem seus obstáculos, uns fáceis, outros mais complicados de passar, mas a vida não é difícil como as pessoas pensam. Se pararmos bem pra perceber, nós que fazemos ela tornar-se difícil. As vezes uma coisa simples de resolver, nós fazemos disso um problemão. Quantas vezes fazemos tempestades em copo d'água sem necessidade.
Num certo dia, acordei com vontade de jogar tudo para o alto, estava revoltada com tudo e com todos. Eu sempre achei que a vida era díficil de ser vivida, que tudo era complicado, relacionar com as pessoas então era o mais complicado.
Logo após, parei um pouco e refleti sobre a arte de viver. Pude observar plenamente que nós estamos errados a respeito de tudo. Com um simples gesto, olhar, podemos mudar a história da vida de alguma pessoa. Um exemplo disso é, quando estamos tristes, magoado com alguma coisa, o mundo parece que está afim de piorar mais ainda. Ao invés das pessoas nos ajudarem, levantando nosso astral, eles fazem totalmente o contrário. Porém, quando estamos felizes, ao invés de compartilharmos nossa felicidade com pessoas próximas, não fazemos isso, somos egoístas.
É mais fácil colocar a culpa nos outros quando o problema está realmente em nós mesmos e não percebemos. Se no lugar de culpar os outros, fizessemos algo pra mudar isso, as coisas estariam totalmente diferente.
Pare para pensar: quantas vezes nós já culpamos alguém injustamente?
Fizemos alguma coisa para mudar isso?
Será que o problema está realmente nas outras pessoas ou sou eu que está causando esse problema?

 Por isso que volto a repetir a vida não é difícil, nós que complicamos ela.
Fica aqui um conselho meu: tira um tempinho, nem que seja uns 10 minutos, pensa bem na sua vida, na vida das pessoas próximas a você. Eu, você, nós, podemos mudar essa história e deixar a vida fácil.
A vida não é difícil, basta olhar ela com outros olhos e mudar o conceito.



Por: Iara Barros Ferreira
2º Período - Publicidade e Propaganda


Continuação da Personagem

Bom, eu estou num momento da minha vida muito difícil, pois meus pais querem que eu mude pra outra cidade pra fazer um terceiro ano ótimo e passar na federal. Sabe, não estou afim de mudar de cidade neste momento. Poxa, logo agora que estou me relacionando melhor com minha turma e também estou namorando com um garoto do colégio. A vida é sempre assim, quando tudo está indo muito bem, aconteceu alguma coisa e muda tudo pra pior, né. Já conversei muito com meus pais, expliquei a minha situação, mais não adiantou, eles só sabem falar a mesma coisa toda hora: "estamos pensando no seu futuro, queremos o melhor para você". Porém, nem sempre o que é melhor pra eles, é melhor pra outras pessoas, como no caso eu. Por isso o "complicada e perfeita", tenho todos os motivos para estar feliz, mais não estou, o ano está acabando e logo minha vida vai mudar para um jeito que eu não quero.
Agora vou falar de coisas boas que aconteceram. Pra quem pensava que eu era complicada demais e que nenhum menino ia me suportar, sim eu estou namorando. Ele estuda no mesmo colégio que eu, também está no segundo ano, porém ele estuda na turma B e eu na A. Ele é muito lindo, super carinhoso comigo, simpático, engraçado, a minha família gosta muito dele. Nunca pensei que fosse gostar tanto de alguém assim como gosto dele. Já faz 1 mês que estamos namorando oficialmente, esse com certeza foi o mês mais feliz da minha vida, espero q os próximos sejam muito melhores. Tem hora que fico pensando como será minha vida a partir do ano que vem sem ele, pois estou acostumada a ver ele toda hora. Só de pensar nisso já fico triste.
É, o negócio é aproveitar bem esse tempo que ainda tenho, o resto depois a gente vê. . .

Não as matem - Lima Barreto

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.
O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.
Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.
Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.
Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.
O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.
Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.
De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?
Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.
Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.
O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.
Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.
Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.
Deixem as mulheres amar à vontade.
Não as matem, pelo amor de Deus!

Crônica da casa assassinada - Lúcio Cardoso

- Primeira narrativa do farmacêutico -


Meu nome é Aurélio dos Santos, e há muito tempo que estou estabelecido em nossa pequena cidade com um negócio drogas e produtos farmacêuticos. Minha loja pode mesmo ser considerada a única do lugar, pois não oferece concorrência um pequeno varejo de produtos homeopáticos situado na Praça Matriz. Assim, quase todo o mundo vem fazer suas compras em minha casa, e mesmo para a família Meneses tenho aviado muitas receitas.

Lembro-me muito bem da noite em que ele veio me procurar. Achava-me sentado sob uma lâmpada baixa, a fim aproveitar a claridade o mais que pudesse, já que a eletricidade em nossa vila é deficiente, e eu consultava um dicionário de pós medicinais impresso em letras exageradamente miúdas. A noite mal começara a baixar, e a loja se achava cheia de mariposas que giravam num círculo cada vez mais fechado em torno da lâmpada. Isto me enervava e eu sacudia a cabeça para afugentá-las, pois tinha as duas mãos ocupadas em sustentar o grosso volume. Não fechara inteiramente a porta, cuidando que apareceria algum freguês retardatário. Como ouvisse um leve rangido, ergui a cabeça e percebi a mão que empurrava a porta — depois o rosto surgiu devagar, sem procurar produzir efeito, apenas como se evitasse uma intervenção repentina.Avançou dois passos e eu reconheci então de quem se tratava. Pareceu-me mais pálido do que habitualmente, de modos hesitantes, olhos desconfiados.

— Boa noite, Sr. Demétrio — disse eu, naturalmente estranhando a visita.

Talvez seja necessário explicar aqui por que aquela chegada não me pareceu um fato banal — é que eles, os Meneses, por orgulho ou por suficiência, eram os únicos fregueses que jamais pisavam em minha casa. Mandavam recados, aviavam receitas, pagavam as contas por intermédio dos empregados. Eu os via passar com certa freqüência, quase sempre de preto, distantes e numa atitude desdenhosa. Dizia comigo mesmo: "São os da Chácara" — e contentava-me em inclinar a cabeça num hábito que já se perdia longe através do tempo. Aliás, devo acrescentar ainda que caminhavam quase sempre juntos, o Sr. Valdo e o Sr. Demétrio. Podiam não ser muito unidos lá dentro de casa, tal como corria de boca em boca, mas nas ruas eu os encontrava sempre ao lado um do outro, como se neste mundo não houvesse melhores irmãos. Uma única vez vi o Sr. Demétrio em companhia de sua esposa, Dona Ana, que a voz corrente dizia encerrada obstinadamente em casa, e sempre em prantos pelo erro que cometera contraindo aquele matrimônio. Não era uma Meneses, pertencia a uma família que antigamente morara nos arredores de Vila Velha, e fora aos poucos triturada pela vida sem viço e sem claridade que os da Chácara levavam. Lamentava-se muito a sua sorte, e alguns chegavam mesmo a dizer que não era de todo destituída de beleza, se bem que um tanto sem vida.

— Boa noite — respondeu-me o Sr. Demétrio, e ficou diante de mim, parado, esperando sem dúvida que eu iniciasse a conversa. Não sei que esquisita maldade se apoderou naquele instante do meu coração — ah, aqueles Meneses! — e por puro capricho continuei em silêncio, o dicionário aberto entre as mãos e contemplando sem pestanejar a face que se achava diante de mim. Devo esclarecer desde já que se tratava de um homem mais baixo do que alto, extraordinariamente pálido. Nada em sua fisionomia parecia ter importância, a natureza se encarregara de moldar uma série de traços sem relevo, tudo batido um tanto a esmo, circundando o ponto central, o único que se via desde o início e que atraía imediatamente a atenção: o nariz, grande, quase agressivo, um autêntico nariz da família Meneses. O que mais impressionava nele, repito, era o aspecto doentio, próprio dos seres que vivem à sombra, segregados do mundo. Talvez essa impressão viesse exclusivamente de sua tez macerada, mas a verdade é que se adivinhava imediatamente a criatura de paragens estranhas, o pássaro noturno, que o sol ofusca e revela.

— Queria um conselho do senhor — disse ele afinal, com um suspiro.

Inclinei a cabeça e, depositando o livro sobre a mesa, voltei-me, manifestando assim que me achava à sua disposição. Ele não ousava esclarecer o que o trouxera, talvez preferisse ser inquirido, e fitava-me sempre, os olhos miúdos rolando de um o para outro.

— No que for possível... — adiantei.

Essas simples palavras como que tiveram o dom de arrancar-lhe um peso do espírito. Qualquer coisa se iluminou escassamente em sua fisionomia e ele se inclinou sobre o balcão, num gesto de maior intimidade. Não digo que sua voz fosse totalmente segura, mas foi vencendo aos poucos as dificuldades, até que conseguiu falar com relativa calma. Confessou-me que sua mulher andava naqueles últimos tempos preocupada com um fato estranho que ocorria na Chácara. Disse isto e, depois de um ligeiro devaneio sobre os perigos da vida na roça, deteve-se e examinou-me para ver se eu acreditava no que dizia — e não sei por quê, neste inesperado silêncio que se formou entre nós, tive a intuição de que mentia, e que desejava que eu acreditasse na sua mentira. Ora, para um Meneses vir a minha casa .era necessário que realmente um fato importante ocorresse, e tão mais importante ainda, já que devia ser apresentado aos meus olhos com todas as roupagens de uma rebuscada mentira. Levantei-me, com a atenção agora inteiramente desperta, e debrucei-me ao seu lado sobre o balcão. Deste modo via seu rosto quase junto ao meu, e não poderia me escapar a menor emoção que o alterasse. Essa atenção pareceu desagradá-lo, e ele insistiu novamente, olhando-me pelo canto dos olhos, sobre as ocorrências que deveriam estar preocupando Dona Ana. Ora, todo o mundo em nossa pacata cidade sabia muito bem que a ela não interessavam as coisas da Chácara, e que seu tempo era pouco para lamentar e chorar as desditas de sua vida. Assim, era inadmissível que ela viesse a se interessar por qualquer "fato estranho" que estivesse ocorrendo na casa dos Meneses. No entanto guardei silêncio, e ele devia se ter contentado com este silêncio. De cabeça baixa, folheando à toa as folhas amareladas do meu .dicionário, ouvi a curiosa informação de que um animal desconhecido andava preocupando os moradores da Chácara. Aparentemente não existia nada de sensacional em semelhante notícia, mas a insistência na palavra "desconhecido" e o modo particular como explicou os ruídos e as pegadas que surgiam, trouxeram-me insensivelmente um sorriso aos lábios. Ele percebeu este riso e insistiu na frase com certa veemência.

— Animal desconhecido? — repeti, procurando encontrar-lhe a expressão do olhar.

Então ele fixou-me como se entregasse toda a sua alma:

— Sim, um cão selvagem; um lobo.

Novamente se estabeleceu um pequeno silêncio entre nós; fechei definitivamente o livro e indaguei:

— Neste caso, em que posso lhe ser útil?

Ele estendeu a mão, pousou-a no meu braço — e pelo tremor que a sacudia, compreendi que havíamos atingido o ponto nevrálgico da questão.

— Que me aconselha o senhor? — disse. — Foi para isto, exclusivamente para isto, que.vim aqui.

Devia ser verdade, nada me induzia a suspeitar de uma mentira oculta por trás daquela afirmativa, mas mesmo assim não pude deixar de soltar um riso breve:

— Mas, Sr. Demétrio, eu nada entendo de caçadas! Talvez fosse melhor ter procurado . . .

Ele balançou a cabeça com energia:

— Não! Não! Existem razões para ter vindo à sua procura. Por exemplo, poderia sugerir-me um veneno, ou qualquer coisa violenta que pudesse ser colocada numa armadilha.

— Não se liquidam lobos com venenos — disse, e fiz menção de colocar o dicionário no seu lugar, sobre a caixa registradora.

Ele devia ter apreendido o significado exato do meu gesto, o desinteresse que comportava. Fitou-me, e com olhos tão duros, tão cheios de súbito e agressivo rancor, que não pude deixar de sentir um estremecimento íntimo. Sem dúvida viera ali por outra causa, isto era mais do que certo, e, receando ir direto ao assunto, tergiversava, dava voltas ao problema, esperando que eu o auxiliasse. Via agora que eu não tinha a menor intenção de vir em seu socorro (por que viria? Desde há muito, desde tempos imemoriais, que entre mim e a família Meneses não existia o menor vislumbre de simpatia. . . ) e. fora esta minha atitude que lhe arrancara aquele olhar eloqüente e cheio de cólera. Ao contrário, em vez de facilitar-lhe a confissão (ou .o que quer que fosse . . . ) mudei completamente de assunto, como se a história do lobo jamais houvesse sido pronunciada. Havia um lado da parede da farmácia que se achava em péssimo estado, devido a uma pequena explosão, provocada por um prático sem experiência. Mostrei-lhe a cal arruinada, os tijolos à mostra, acrescentando com um sorriso:

— Tempos duros os que vivemos, Sr. Demétrio! Veja esta parede que carece tanto de reparos! Há dois meses espero conseguir o dinheiro necessário, e até agora não fiz nem sequer encomendar um tijolo!

Diante de mim, imóvel, ele seguia com extrema atenção aquela fingida volubilidade. Provavelmente estaria procurando adivinhar em minhas palavras um sentido oculto, uma insinuação qualquer — e eu confesso que nada mais queriam dizer além do sentido nu que exprimiam, nada, senão que o muro necessitava de conserto, e que eu não possuía o dinheiro necessário para fazê-lo. No entanto, uma inspiração pareceu tocá-lo de repente, vi uma pequena luz se acender em seus olhos, enquanto mais uma vez estendia a mão e tocava-me o braço:

— Talvez possa ajudá-lo, quem sabe? Um tijolo a mais ou a menos, sempre estamos aqui para ajudar os amigos.

Ao ouvir estas palavras, eu me achava de costas: voltei-me devagar e fitei-o bem no fundo dos olhos. Imaginei ver então agitar-se naquelas profundezas alguma coisa brilhante como a esperança — de quê, meu Deus, nem eu próprio o poderia dizer jamais, tão recôndita cintilava diante de mim, tão secreta, tão acrisolada no fundo triste daquela alma. Ele não desviou a vista, ao contrário, ofereceu-se inteiro como quem abre um livro diante de mim, e assim ficamos durante alguns segundos, transitando de um para o outro, invisíveis e rápidos, pensamentos sem nexo, restos de idéias e sentimentos, coisas que o inconsciente apenas trazia. à tona, mas que nos faziam atingir uma importante fase de compreensão.

— Uns tijolos. . . — murmurei É exatamente do que eu preciso.

— Digamos . . . um carro deles? — sugeriu, debruçando-se familiarmente sobre o balcão.

Oh, decerto ele arfava um pouco, e já seus olhos, inteiramente acesos, sondavam-me a face com avidez, buscavam-me a palavra de pronta aquiescência, numa falta de pudor, numa pressa que me escandalizava quase. Ainda assim, balancei a cabeça com ar penalizado:

— Um carro! Digamos três, Sr. Demétrio, não consigo tapar aquele rombo com menos de três carros de tijolos!

Qualquer coisa como um sorriso — um diminuto, um insignificante sorriso de vitória — esboçou-se em sua face pálida. Como eu aguardasse, ele aquiesceu com um movimento de cabeça. Havíamos atingido um terreno de onde não me seria possível recuar, e foi portanto com a mais serena das vozes que voltei ao assunto inicial:

— Um lobo numa chácara é sempre perigoso. Contudo. . .

Repetiu sufocado, como se lhe custasse um esforço imenso aquela palavra:

— Contudo. . .

Dei alguns passos pela loja, procurando mostrar-me o mais natural possível:

— Contudo existem meios práticos de liquidá-los, sem que seja necessário recorrer ao veneno.

— Por exemplo... — sugeriu ele.

Abandonei-o um instante sem resposta, dirigindo-me ao interior da casa. Devo esclarecer que ocupava um modesto aposento dos fundos, mal iluminado e de assoalho periclitante, cuja única vantagem era me oferecer guarida durante a noite, próximo à loja, podendo assim atender algum freguês que surgisse em horas avançadas. Corria no entanto a notícia de que alguns ladrões andavam operando em nossa pequena cidade, e este, sem dúvida, foi o motivo que me levou a guardar na gaveta da cômoda, entre peças de roupa passada, um pequeno revólver. "Não me apanharão desprevenido" — dizia comigo mesmo. Assim, abri a gaveta e tateei entre a roupa, não tardando muito a encontrar o que procurava. Silencioso como me afastara, voltei à farmácia e depositei a arma sobre o balcão.

— Que é isto? — indagou o Sr. Demétrio sem ousar tocar no objeto.

— Oh — exclamei — apenas uma brincadeira. É de manejo fácil, mas liquida qualquer lobo.

Ele pareceu hesitar, fixando sempre a arma, sem coragem para tocá-la. Não sei que confusos pensamentos se digladiavam no seu íntimo — sei apenas que em certo momento, estendendo devagar a mão, tomou o revólver e examinou-o erguido quase à altura dos olhos.

— É uma arma feminina — disse, fazendo cintilar as incrustações de madrepérola que bordavam o seu cabo.

— Pertenceu à minha mãe — esclareci.

Ele rodava a arma, e já agora eu podia perceber que a satisfação brilhava claramente em seus olhos.

— Funciona bem? — indagou, apontando o cano para o fundo da loja.

— Perfeitamente.

E tentando desvanecer seus últimos escrúpulos, acrescentei:

- É uma arma como hoje não se fabrica mais.

A partir desse ponto, podia se dizer que ele estava definitivamente conquistado. Vendo-o, eu indagava de mim mesmo se aquele Meneses não teria vindo à minha casa precisamente para obter a arma — eles, que eram tão ricos em recursos e estratagemas acaso poderiam deixar de ter em casa um revólver idêntico àquele? Em que circunstâncias o utilizariam, sob que pretexto comprometeriam um outro na ação que provavelmente estariam prestes a executar? E se se tratasse na verdade de um lobo — a idéia era quase ingênua... — por que não liquidá-lo de um modo mais simples, com uma armadilha, por exemplo? De qualquer modo, ergui os ombros — o negócio me convinha.

O Sr. Demétrio experimentou ainda o gatilho, retirou o tambor, chegou a esfregar o cano na manga do paletó — e era mais do que evidente que tudo aquilo lhe causava um secreto, um intenso prazer, como se desde já, da obscuridade da farmácia, sentisse seus inimigos trucidados. Parou afinal o exame e fitou-me — e posso jurar que só um sentimento muito fundo, talvez antigo, mas imoral e cheio de impiedade, desenhou o sorriso que aflorou à sua face — ah, um sorriso de entendimento, de alguém que se sente perfeitamente seguro do valor da transação que acaba de realizar. Ao mesmo tempo colocou a mão sobre o meu braço:

— Obrigado, amigo. Creio que não existe mesmo melhor meio para liquidar lobos. . .

Sorri também, despedimo-nos. O Sr. Demétrio encaminhou-se para a rua, apertando o revólver no fundo do bolso; eu balançando a cabeça — os mistérios da natureza humana — voltei ao meu dicionário.

Homem que é homem - Luís Fernando Veríssimo



Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.
HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.
HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.
E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.

27 de setembro de 2009

Criação de um personagem

Personagem - Maria Guadalupe


Baseada em fatos reais.

Cansada de todas histórias começarem do mesmo jeito, eis que começa a história da minha personagem...


Bem, eu me chamo Maria Guadalupe, porém todos me conhecem por Lupi ou simplesmente Lú e tenho 16 anos. Complicada e perfeitinha, é, sim, eu sou assim, uma adolescente bastante complicada. Eu estou no segundo ano do Ensino Médio, estudo em colégio particular, sou filha única, meu pai é médico e minha mãe advogada, convivo bem com minha família tenho tudo que preciso, mas todos me fazem essa pergunta (às vezes eu mesmo me pergunto isso também): Por que tanta rebeldia? Por que você é tão complicada?, então até no final dessa história todos irão descobrir.


* Amanhã continuarei a contar a história dessa garota “Complicada e Perfeitinha”, Maria Guadalupe.


Ilha das Flores - Comercial Banco Real Yuri

O curta-metragem Ilha das Flores, produzido há 17 anos dura menos de 20 minutos. O documentário, além, do tema humano e social, reside numa estratégia argumentativa que seduz e engana o telespectador, que não consegue perceber o tema verdadeiro do filme, só revelado por Furtado nos instantes finais, depois de vertiginosa sucessão de imagens. Utilizando uma linguagem quase científica, o curta mostra como a economia gera relações desiguais entre os seres humanos, a miséria é o tópico central. O ritmo alucinado utilizado para que fiquemos sabendo sobre os tomates do Sr. Suzuki, o perfume de dona Anete, o surgimento do dinheiro, nos dá pouco tempo para refletir sobre toda a informação, portanto assistimos duas ou mais vezes. Outra coisa que chama bastante atenção é a quantidade de imagens, como se fosse uma colagem.
O comercial do Banco Real usa Yuri como personagem principal, faz referencia a sustentabilidade. Sustentabilidade é uma palavra nova, muitas pessoas ainda não sabem bem o que é isso. Para um empreendimento humano ser sustentável, tem de ter em vista 4 requisitos básicos. Esse empreendimento tem de ser: ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo, culturalmente aceito. São esses 4 requisitos básicos que o Banco Real está fazendo.
Comparando Ilha das Flores com Comercial Banco Real Yuri, ao mesmo tempo que há divergencia é coerente. No Ilhas das Flores, como já disse o tópico central é a miséria, mostra bem a realidade, a desigualdade. Já no Comercial Banco Real Yuri, mostra também a realidade, porém mostra as soluções.



Circuto

Levantar, chinelo, pia, escova de dente, creme dental, água, chuveiro, sabonete, toalha, roupa, leite, pão, quarto, tv, almoço, internet, música, estudar, banheiro, chuveiro, sabonete, toalha, roupa, secador, carro, faculdade, aulas, carro, casa, leite, biscoito, pia, escova de dente, creme dental, água, cama.

Paráfrase

“ O mundo da história está mudando com a guerra do Iraque e numa velocidade incompatível com o tempo necessário para compreendermos e assimilarmos o verdadeiro significado dessa mudança. Não somos seus meros espectadores. Essa guerra nos afeta pelo que ouvimos, lemos e vemos a seu respeito. Ela parece nos nossos sonhos, contamina nosso humor, dirige surdamente nossos planos. Não importa onde ocorra, uma guerra se espalha por toda parte como uma nuvem negra, um peso difuso. O mal que se desprende na guerra é a prepotência do poder, o ímpeto devastador e desmedido da força e da violência que, de propósito, são usadas para ferir e matar os homens, para devastar o mundo por eles tão arduamente construído e, a reboque, assolar a natureza.”

Dulce Critelli, Folha de S. Paulo, 24 de abril de 2003.


Paráfrase
A guerra do Iraque nos afeta pelo fato do que vemos, lemos, ouvimos a respeito, portanto está mudando o mundo da história numa velocidade incompatível com o tempo para entendermos o verdadeiro significado dessa mudança. Não importa o local que ocorra, uma guerra ou uma simples notícia se espalha por toda parte rapidamente. O mal que se desprende na guerra é a superioridade do poder que são usadas para ferir e matar os homens.

11 de setembro de 2009

Umas Férias (Conto) - Machado de Assis

Umas Férias
por Machado de Assis
Vieram dizer ao mestre-escola que alguém lhe queria falar.


— Quem é?
— Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto.
— Que entre.


Houve um movimento geral de cabeças na direção da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Éramos não sei quantos meninos na escola. Não tardou que aparecesse uma figura rude, tez queimada, cabelos compridos, sem sinal de pente, a roupa amarrotada, não me lembra bem a cor nem a fazenda, mas provavelmente era brim pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais que ninguém, porque ele era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba. Chamava-se tio Zeca.


Tio Zeca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fê-lo sentar, olhou para mim, e creio que lhe perguntou alguma coisa, porque tio Zeca entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, ele respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:


— Sr. José Martins, pode sair.


A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez anos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado de casa, o próprio tio, irmão de meu pai, que chegara na véspera de Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer coisa. Corri a buscar o chapéu, meti o livro de leitura no bolso e desci as escadas da escola, um sobradinho da Rua do Senado. No corredor beijei a mão a tio Zeca. Na rua fui andando ao pé dele, amiudando os passos, e levantando a cara. Ele não me dizia nada, eu não me atrevia a nenhuma pergunta. Pouco depois chegávamos ao colégio de minha irmã Felícia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os três caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia festa em casa, pois que íamos os dois, ela e eu; íamos na frente, trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez anos de tio Zeca. Voltei a cara para ele; vinha com os olhos no chão, provavelmente para não cair.


Fomos andando. Felícia era mais velha que eu um ano. Calçava sapato raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima do tornozelo com laço. Eu, botins de cordovão, já gastos. As calcinhas dela pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez parávamos, ela para admirar as bonecas à porta dos armarinhos, eu para ver, à porta das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cansa em tal idade. Tio Zeca é que nos tirava do espetáculo industrial ou natural. — Andem, dizia ele em voz sumida. E nós andávamos, até que outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era a festa que nos esperava em casa.


— Não creio que sejam anos de tio Zeca, disse-me Felícia.
— Por quê?
— Parece meio triste.
— Triste, não, parece carrancudo.
— Ou carrancudo. Quem faz anos tem a cara alegre.
— Então serão anos de meu padrinho...
— Ou de minha madrinha...
— Mas por que é que mamãe nos mandou para a escola?
— Talvez não soubesse.
— Há de haver jantar grande...
— Com doce...
— Talvez dancemos.


Fizemos um acordo: podia ser festa, sem aniversário de ninguém. A sorte grande, por exemplo. Ocorreu-me também que podiam ser eleições. Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em vitória próxima que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o dia era sexta-feira. Imaginei bandas de música, vivas e palmas, e nós, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espetáculo à noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao teatro, e voltei dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita coisa, isto sim, cadeiras ricas, tronos, lanças compridas, cenas que mudavam à vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos príncipes. Era assim que chamávamos aos que vestiam calção de seda, sapato de fivela ou botas, espada, capa de veludo, gorra com pluma. Também houve bailado. As bailarinas e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um sorriso constante na boca. Depois os gritos do público e as palmas...


Já duas vezes escrevi palmas; é que as conhecia bem. Felícia, a quem comuniquei a possibilidade do espetáculo, não me pareceu gostar muito, mas também não recusou nada. Iria ao teatro. E quem sabe se não seria em casa, teatrinho de bonecos? Íamos nessas conjecturas, quando tio Zeca nos disse que esperássemos; tinha parado a conversar com um sujeito.


Paramos, à espera. A idéia da festa, qualquer que fosse, continuou a agitar-nos, mais a mim que a ela. Imaginei trinta mil coisas, sem acabar nenhuma, tão precipitadas vinham, e tão confusas que não as distinguia; pode ser até que se repetissem. Felícia chamou a minha atenção para dois moleques de carapuça encarnada, que passavam carregando canas — o que nos lembrou as noites de Santo Antônio e S. João, já lá idas. Então falei-lhe das fogueiras do nosso quintal, das bichas que queimamos, das rodinhas, das pistolas e das danças com outros meninos. Se houvesse agora a mesma coisa... Ah! lembrou-me que era ocasião de deitar à fogueira o livro da escola, e o dela também, com os pontos de costura que estava aprendendo.


— Isso não, acudiu Felícia.
— Eu queimava o meu livro.
— Papai comprava outro.
— Enquanto comprasse, eu ficava brincando em casa; aprender é muito aborrecido.


Nisto estávamos, quando vimos tio Zeca e o desconhecido ao pé de nós. O desconhecido pegou-nos nos queixos e levantou-nos a cara para ele, fitou-nos com seriedade, deixou-nos e despediu-se.


— Nove horas? Lá estarei, disse ele.
— Vamos, disse-nos tio Zeca.


Quis perguntar-lhe quem era aquele homem, e até me pareceu conhecê-lo vagamente. Felícia também. Nenhum de nós acertava com a pessoa: mas a promessa de lá estar às nove horas dominou o resto. Era festa, algum baile, conquanto às nove horas costumássemos ir para a cama. Naturalmente, por exceção, estaríamos acordados. Como chegássemos a um rego de lama, peguei da mão de Felícia, e transpusemo-lo de um salto, tão violento que quase me caiu o livro. Olhei para tio Zeca, a ver o efeito do gesto; vi-o abanar a cabeça com reprovação. Ri, ela sorriu, e fomos pela calçada adiante.


Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dois era mulher. Vinham da roça. Tio Zeca foi ter com eles ao meio da rua, depois de dizer que esperássemos. Os animais pararam, creio que de si mesmos, por também conhecerem a tio Zeca, idéia que Felícia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção; tudo era folgar. Fosse como fosse, esperamos os dois, examinando o casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e também mais moça; ele tinha os cabelos grisalhos. Não ouvimos o que disseram, ele e tio Zeca; vimo-lo, sim, o marido olhar para nós com ar de curiosidade, e falar à mulher, que também nos deitou os olhos, agora com pena ou coisa parecida. Enfim apartaram-se, tio Zeca veio ter conosco e enfiamos para casa.


A casa ficava na rua próxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta, vimos os portais da casa forrados de preto — o que nos encheu de espanto. Instintivamente paramos e voltamos a cabeça para tio Zeca. Este veio a nós, deu a mão a cada um e ia dizer alguma palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos consigo. Quando chegamos, as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um armarinho. Na rua, curiosos. Nas janelas fronteiras e laterais, cabeças aglomeradas. Houve certo rebuliço quando chegamos. É natural que eu tivesse a boca aberta, como Felícia. Tio Zeca empurrou uma das meias-portas, entramos os três, ele tornou a cerrá-la, meteu-se pelo corredor e fomos à sala de jantar e à alcova.


Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veio abraçar-nos entre lágrimas, bradando:


— Meus filhos, vosso pai morreu!


A comoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem a consciência da notícia. Não tive forças para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto por quê? Estas duas perguntas, se as meto aqui, é para dar seguimento à ação; naquele momento não perguntei nada a mim nem a ninguém. Ouvi as palavras de minha mãe, que se repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ela pegou em nós e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadáver do marido; e fez-nos beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu daquilo que, apesar de tudo, não entendera nada a princípio; a tristeza e o silêncio das pessoas que rodeavam a cama ajudaram a explicar que meu pai morrera deveras. Não se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa, não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito fizesse crescer a minha dor de filho não é coisa que possa afirmar ou negar; melhor é calar. O pai ali estava defunto, sem pulos, nem danças, nem risadas, nem bandas de música, coisas todas também defuntas. Se me houvessem dito à saída da escola por que é que me iam lá buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, de onde era agora expelida a punhadas.


O enterro foi no dia seguinte às nove horas da manhã, e provavelmente lá estava aquele amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a promessa de ir às nove horas. Não vi as cerimônias; alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um trapiche, lá estava, e a mulher também, que me levou a uma alcova dos fundos para me mostrar gravuras. Na ocasião da saída, ouvi os gritos de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas alças do caixão, creio eu: — "vire de lado — mais à esquerda — assim, segure bem..." Depois, ao longe, o coche andando e as seges atrás dele...


Lá iam meu pai e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quais alguma vez me lembrei do colégio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas visitas de pêsames. Eu também chorava; não via meu pai às horas do costume, não lhe ouvia as palavras à mesa ou ao balcão, nem as carícias que dizia aos pássaros. Que ele era muito amigo de pássaros, e tinha três ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quase que só falava às pessoas de fora. Foi assim que eu soube que meu pai morrera de apoplexia. Ouvi esta notícia muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ela referia tudo, a hora, o gesto, a ocasião: tinha ido beber água, e enchia um copo, à janela da área. Tudo decorei, à força de ouvi-lo contar.


Nem por isso os meninos do colégio deixavam de vir espiar para dentro da minha memória. Um deles chegou a perguntar-me quando é que eu voltaria.


— Sábado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda.
— Antes sábado, emendei.
— Pois sim, concordou.


Não sorria; se pudesse, sorriria de gosto ao ver que eu queria voltar mais cedo à escola. Mas, sabendo que eu não gostava de aprender, como entenderia a emenda? Provavelmente, deu-lhe algum sentido superior, conselho do céu ou do marido. Em verdade, eu não folgava, se lerdes isto com o sentido de rir. Com o de descansar também não cabe, porque minha mãe fazia-me estudar, e, tanto como o estudo, aborrecia-me a atitude. Obrigado a estar sentado, com o livro nas mãos, a um canto ou à mesa, dava ao diabo o livro, a mesa e a cadeira. Usava um recurso que recomendo aos preguiçosos: deixava os olhos na página e abria a porta à imaginação. Corria a apanhar as flechas dos foguetes, a ouvir os realejos, a bailar com meninas, a cantar, a rir, a espancar de mentira ou de brincadeira, como for mais claro.


Uma vez, como desse por mim a andar na sala sem ler, minha mãe repreendeu-me, e eu respondi que estava pensando em meu pai. A explicação fê-la chorar, e, para dizer tudo, não era totalmente mentira; tinha-me lembrado o último presentinho que ele me dera, e entrei a vê-lo com o mimo na mão.


Felícia vivia tão triste como eu, mas confesso a minha verdade, a causa principal não era a mesma. Gostava de brincar, mas não sentia a ausência do brinco, não se lhe dava de acompanhar a mãe, coser com ela, e uma vez fui achá-la a enxugar-lhe os olhos. Meio vexado, pensei em imitá-la, e meti a mão no bolso para tirar o lenço. A mão entrou sem ternura, e, não achando o lenço, saiu sem pesar. Creio que ao gesto não faltava só originalidade, mas sinceridade também.


Não me censurem. Sincero fui longos dias calados e reclusos. Quis uma vez ir para o armarinho, que se abriu depois do enterro, onde o caixeiro continuou a servir. Conversaria com este, assistiria à venda de linhas e agulhas, à medição de fitas, iria à porta, à calçada, à esquina da rua... Minha mãe sufocou este sonho pouco depois de ele nascer. Mal chegara ao balcão, mandou-me buscar pela escrava; lá fui para o interior da casa e para o estudo. Arrepelei-me, apertei os dedos à guisa de quem quer dar murro; não me lembra se chorei de raiva.


O livro lembrou-me a escola, e a imagem da escola consolou-me. Já então lhe tinha grandes saudades. Via de longe as caras dos meninos, os nossos gestos de troça nos bancos, e os saltos à saída. Senti cair-me na cara uma daquelas bolinhas de papel com que nos espertávamos uns aos outros, e fiz a minha e atirei-a ao meu suposto espertador. A bolinha, como acontecia às vezes, foi cair na cabeça de terceiro, que se desforrou depressa. Alguns, mais tímidos, limitavam-se a fazer caretas. Não era folguedo franco, mas já me valia por ele. Aquele degredo que eu deixei tão alegremente com tio Zeca, parecia-me agora um céu remoto, e tinha medo de o perder. Nenhuma festa em casa, poucas palavras, raro movimento. Foi por esse tempo que eu desenhei a lápis maior número de gatos nas margens do livro de leitura; gatos e porcos. Não alegrava, mas distraía.
A missa do sétimo dia restituiu-me à rua; no sábado não fui à escola, fui à casa de meu padrinho, onde pude falar um pouco mais, e no domingo estive à porta da loja. Não era alegria completa. A total alegria foi segunda-feira, na escola. Entrei vestido de preto, fui mirado com curiosidade, mas tão outro ao pé dos meus condiscípulos, que me esqueceram as férias sem gosto, e achei uma grande alegria sem férias.




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10 de setembro de 2009

Filme - O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias

Mauro, o protagonista do filme, é um garoto de 12 anos, que adora futebol e jogo de botão. O filme é passado no ano de 1970. Mauro morava em Belo Horizonte com seus pais. Um certo dia, a vida do garoto muda inesperadamente, pois seus pais resolvem sair de férias sem motivo. Isso é o que o Mauro sabe, pois na verdade seus pais foram obrigados a fugir por serem militantes da esquerda. Seus pais prometeram voltar na Copa de 1970. Seus pais resolveram deixar Mauro com o seu avô paterno que morava em São Paulo. Porém quando Mauro chega na casa do seu avô, ele nao está, pois ele tinha falecido. O garoto fica na casa do vizinho de seu avô, Shlomo, um senhor judeu que morava sozinho. Mauro teve que lidar com a nova realidade: estava sozinho numa cidade q não conhecia. Começa a Copa de 1970, Mauro alegra-se, pois seus pais iriam voltar pra busca-lo. Passou a Copa, o Brasil foi campeão. A mãe de Mauro volta sozinha para voltarem para Belo Horizonte, pois seu pai tinha falecido.




Principais Prêmios e Indicações:


Festival do Rio 2006 (Brasil)


Ganhou o Troféu Redentor (júri popular) na categoria de melhor filme.


Festival de Lima 2007 (Peru)
Ganhou o Troféu Spondylus (júri popular) na categoria de melhor filme.


Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Brasil)
Ganhou o Prêmio do Júri - Menção Honrosa e o Prêmio Petrobras Cultural de Difusão na categoria de melhor filme de ficção.


Festival de Berlim 2007 (Alemanha)
Indicado na categoria de melhor filme.


Young Artist Awards 2008 (Hollywood)
Indicado na categoria de melhor filme estrangeiro.


Oscar 2008 (Estados Unidos)
O filme esteve entre os nove escolhidos para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas não ficou entre os cinco finalistas.


Fonte dos "Principais Prêmios e Indicações": http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Ano_em_que_Meus_Pais_Sa%C3%ADram_de_F%C3%A9rias

7 de setembro de 2009

Independência do Brasil

Independência do Brasil


De acordo com a história oficial, no dia 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga (atual cidade de São Paulo), o Príncipe Regente D. Pedro bradou perante a sua comitiva: Independência ou Morte!.
Segundo diz a tradição, a música foi composta pelo Imperador às quatro horas da tarde do mesmo dia do Grito do Ipiranga, 7 de setembro de 1822, quando já estava de volta a São Paulo vindo de Santos. Este hino de início foi adotado como Hino Nacional, mas quando D. Pedro começou a perder popularidade, processo que culminou em sua abdicação, o hino, fortemente associado à sua figura, igualmente passou a ser também desprestigiado, sendo substituído pela melodia do atual Hino Nacional, que já existia desde o mesmo ano de 1822.







Hino Da Independência Brasileira

Hinos Composição: Evaristo da Veiga
Música de: D. Pedro I.

Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
Brava gente brasileira!

Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre

http://www.youtube.com/watch?v=ueHEhpEhIhY